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Suflair, de nina lima

Atualizado: 15 de Out de 2020

Quando me encosto ao balcão, o cheiro de gordura é óbvio no ar.


Há uma onda de vapor quente vinda da cozinha que me incomoda, mas eu não me afasto dali, faço dela uma desculpa para o meu rosto corado, minhas mãos suadas. E eu faço isso não porque sou corajosa ou teimosa, é que não resisto; você está a poucos metros de mim, e, como da primeira vez, tento me acostumar com o fôlego perdido.


Então eu me velo, me projeto para o mundo; finjo que não te reconheço, que só estou ali por acaso… Mas essa cortina de desinteresse se desvanece rápido quando você se aproxima.


– McFlurry de Suflair, certo? – você lê rapidamente a nota que lhe dou.


– Isso – eu respondo, com a voz pequena. – Por favor. – Te olhar diretamente acaba sendo um deslize doce; seu cabelo está diferente hoje – mais curto na nuca e laterais e fofo no topo da cabeça, o que permite à luz ambiente delinear melhor os detalhes do seu rosto. O sol que trespassa morno pelo teto de vidro do shopping doura o tom achocolatado de suas íris castanhas, duas pedras lisas e caramelizadas em uma face de lábios comuns, mas aparentemente macios e acerejados.


Eu fito o desenho do seu maxilar, agora exposto e potencializado por seus alargadores pretos. Um deles é em forma de caracol e meus olhos se deitam, como que magnetizados, sobre a extensão que percorre a sua garganta. É um momento breve antes que você se mova e continue a trabalhar, mas eu absorvo tudo como se fosse tudo o que quero de você. Você parece mais certa de si mesma e eu me pergunto, um pouco hesitante, se é isso que te faz diferente, afinal. Diferente de fissura, diferente de paixão... Mas continuo sem resposta.


– Aqui está – você diz, minutos depois, entregando-me o sorvete.


Alguém grita o seu nome. Eu agradeço.


– Bom apetite.


Eu só tenho a agradecer e, por isso, me retiro dali como se aquele pedaço de tempo não tivesse qualquer valor.


– Comprou? Feliz agora? – minha mãe pergunta em tom divertido ao que me sento à mesa, beliscando o chocolate.


– Sim.


– Então não demora. Temos que buscar seu pai em 20 minutos.


Eu me esqueço de você, eventualmente.


nina lima, de 20 e poucos anos, é paulista, com um pezinho no Nordeste, e detentora de uma pequena (grande) queda por histórias de romance cotidiano em que os mais singelos detalhes são os mais agradáveis de ler e escrever.

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