Sopro entre mundos literários (parte II), de Jéssica Marques da Costa

PERCORRENDO O RIO DAS RECORDAÇÕES


Depois de tudo que acompanhei naquele planeta, me detive no tempo presente, ouvindo um barulho constante e metálico, havia quase me esquecido daquelas turbinas que agitavam parte de mim. Agora que as ouço me vêm um instante de sopro, percorro novamente o rio das minhas recordações em busca de lembranças que não estivessem cheias de árvores podres das matas que foram mortas por aquele monstro de cimento.¹ Falavam bonito, que aquilo ia trazer progresso pra região, empregos, e por isso, precisavam me desviar um pouco pra uma tal de usina. Diziam que alimentando ela, a magia aconteceria, luz.


É verdade que tive quem lutasse por mim, quem entendia o quanto esse empreendimento seria arriscado, mudando toda a lógica de vida ao redor, e no fundo sabiam que só importava para aqueles que a empregavam, os lucros ganhos. Desde aquela reunião potente em que meus filhos se uniram lá em Altamira, já alertavam para os problemas que adviria dessa construção. Muitos eram contra toda aquela ideia de progresso vindo da Belo Monte. Houve a união de várias etnias que tentaram construir juntas uma resistência forte que acabou por paralisar o empreendimento por mais de vinte anos. Houve também os que eram a favor.


Mas no fim, ela chegou, menos forte do que os homens de negócio queriam, contudo, o suficiente para muita coisa mudar, houveram mais desmatamento, mais violências, tudo o oposto de todas aquelas coisas boas prometidas de suas bocas engravatadas. Maria Altamira, filha das minhas águas, acompanhou um pouco dessa luta de indígenas e ribeirinhos.


Neste momento, partes de mim estão secas, vejo meus peixes morrerem. A energia que prometeram é falha em muitos locais. Posso ver a insatisfação do meu povo, ouvir seus protestos. Mesmo com toda a riqueza que deveria desbocar de mim naturalmente, meus povos reclamam da falta de água potável e da escassez de alimentos. Há um tempo venho sentido mais turbulências. Vejo as pessoas andando com faixas pelo rosto, evitam-se encostar umas nas outras com se houvesse um mal invisível em cada uma. Porém, de fato, o que corre pelo ar parece-me mais como uma consequência do desequilíbrio humano.

Ouço o lamento do meu povo, choro pelos que partiram. Tosse, mas já não é mais só por causa da fumaça das queimadas.


Uma vez vaguei por muito tempo, tanto que não pude contabilizar, e muito menos demarcar espaço. Aparentemente, em espírito, estava na terra como sempre havia estado, mas era um outro lugar, em um outro universo. De onde estava, vi vários de andarilhos, mulheres, homens, crianças, contei poucos velhos. Todos pareciam com pressa e desconfiados. Alguns armados. Poucos sozinhos. Parecia não ser seguro andar ali só. Vi quando atacaram uma mulher, roubaram seus poucos pertences. E nesse momento vi Olamina,² estava em pequeno grupo, vi dor em seu rosto. Percebi que levava em sua bagagem uma série de sementes. Era uma mulher que ainda sabia o valor que tinha a natureza, e pagaria caro por isso.


No pouco tempo que vaguei por lá, ouvi e vi muitas coisas. Lá eles eram governados por um Presidente fanático de extrema-direita. Ouvi sussurros sobre ele, acreditava que o país precisava retomar sua superioridade, e principalmente a fé cristã. Muitos votaram nele porque também queriam acreditar que era o único que poderia fazer a ‘américa grande de novo’, famoso como pregador, possuía um grande secto que aos poucos tomou fôlego e restava ao restante do povo que fosse diferente, como alguns daqueles andarilhos, fugir de seu fogo purificador.


Ninguém se preocupava quando estes seguidores fervorosos do Presidente invadiam as comunidades de sobreviventes da Praga, sequestravam seus filhos com a desculpa de entregá-los a famílias cristãs. Não houve nenhuma manifestação quando estes mesmos seguidores matavam e escravizavam essas pessoas. Na verdade, a população mais abastarda se mostrava aliviada, afinal, as ruas eram limpas de tudo o que não queriam ver. Se não havia mais centenas de desempregados que lotavam as ruas, andarilhos, prostitutas, sem tetos, vendedores de legumes de comunidades ditas pagãs como a da Olamina, então era sinal que estavam voltando aos bons tempos de bem estar social. Essas pessoas já não tinham nada mais além da própria vida, e mesmo isso já não poderia ser garantido, pois, viviam à mercê da política do medo e de morte constante.


Acabei sendo retirada abruptamente daquele lugar, algo estava me chamando de volta, e, enquanto regressava, não pude deixar de notar certas semelhanças entre o mundo de Olamina com esse tempo presente. Será que é pra lá que seguimos? Não tive tempo de refletir, quando ouvi um choro alto e grave de desespero. Era doloroso ouvir. Senti um gosto salgado em minhas águas doces. As lágrimas viam de mulheres Yanomami que gritavam por seus filhos. “Sofri para ter essa criança. E estou sofrendo. Meu povo está sofrendo. Preciso levar o corpo do meu filho para a aldeia. Não posso voltar sem o corpo do meu filho.”



Segunda parte de Sopro entre mundos literários: reflexões sobre a situação e resistência dos povos indígenas em meio ao Brasil pandêmico. Conclusão dia 4 de abril.

Notas ¹A construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte na região de Volta Grande do Xingu, um dos territórios com grande concentração de etnias indígenas, e a resistência de grande parte desses povos residentes da região, é um dos motes da história de Maria José Silveira. A protagonista, Maria Altamira, filha da personagem Alelí, uma andarilha peruana com Manu Juruna. Nascida nos anos 80, cresce acompanhando os desdobramentos do projeto, que tem seu barramento definitivo em 2016. E devido a esse empreendimento, os Jurunas denominaram o ano de 2016 como o ano do fim do mundo, pois, Belo Monte seria o início do fim da vida no Xingu, pois, todo o ecossistema se alteraria.

²Octávia Butler escreve no segundo livro da série Semente da Terra sobre um Estados Unidos pós Praga. Um período no qual o mundo passa por uma série de crises climáticas, econômicas e sociológicas entre os anos de 2015 a 2030. De acordo com a história da autora, a crise foi parcelada, mas suas causas remontam de muito antes de 2015, sendo o lucro uma desculpa para uma degradação ambiental cada vez maior, e guerras travadas à revelia. p. 19.

Jéssica Marques da Costa é luzianiense, 24 anos, e tem morada na cidade de Jataí-GO onde faz graduação em História pela UFJ. Ama literatura e está em contínua procura de sua própria voz, escreve sempre que pode.

@ms_jessicamarques

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