Sopro entre mundos literários (parte I), de Jéssica Marques da Costa

Atualizado: Fev 25

Apresentação


Esse texto, originalmente escrito como um ensaio para a conclusão de uma disciplina da universidade, tem por objetivo refletir, sentir, escrever sobre a situação e resistência dos povos indígenas em meio ao contexto de pandemia no Brasil.


Utilizei elementos literários dos romances das autoras Úrsula Le Guin (Editora Morro Branco, 2020) Octávia Butler (Editora Morro Branco, 2019) e Maria José Silveira (Editora Instante, 2020) como um fundo, meio e, início de modo a tecer uma trama para discutir historicamente a condição e desafios dos povos originários no Brasil. É um texto simples, mas acredito que sensível, inspirado, atual e talvez necessário.

Obrigada por lerem.


SOPRO A OUTROS MUNDOS


“Foi por um sopro. O sopro do demiurgo Senã`ã criou a Volta Grande do Xingu, as cachoeiras do Jericoá e os Juruna (ou Yudjã).”¹


Aqui estou, há tanto tempo, que na cronologia dos homens, dificilmente, se poderia apreender minha existência para além de números. Tanto vi, tantos conheci, quantos filhos e filhas perdi, mas, também ganhei. Por vezes, preciso fazer muito esforço para recordar, pois com o fluxo do tempo, as memórias ficam tão turvas quanto minhas águas estão hoje. Outras vezes, consigo sentir toda a existência com pouco esforço, assim… como um sopro. E, nesses momentos, em que longamente me demoro, acabo por visualizar tantos acontecimentos organizados em uma confusão de tempos e universos.


Só posso crer que é isso que meus filhos Assurini chamam de ‘universo transformacional’². Percorrendo múltiplos mundos como um grande xamã, uma vez me detive em um outro planeta. Meus filhos de lá viviam em paz, e pude observá-los sonhando muitas vezes. Comecei a ir para Athshe³ com frequência por breves momentos, chegando até a sentir aqueles povos de grandes olhos me observarem por entre a cabeleira verde espalhada em seus corpos de um metro de altura. Alegremente constatei que entre seus vários modos de vida, territórios e práticas, havia algo de similar com meus filhos da terra.


Um dia, em um desses sopros de viajem, senti um gosto de sangue. Seus sonhos não eram mais os mesmos, rapidamente conclui o porquê. Os kari estavam ali, mas eram diferentes, eram homens brancos da terra de um tempo futuro. Sim, eram agora chamados de terranos. Oh, a terra já não era mais a mesma, eu havia sido varrida. Agora arrasada, só restava um grande deserto de cimento, sem florestas, sem animais, com passado de grandes crises de fome, doenças epidemiológicas, guerras.


Vi um dos terranos colonos, jogar um pequeno athsheano ao chão, e aos gritos: “creechies inúteis. não vejo a hora do nosso capitão mandar exterminar todos. não vê que estamos dando uma chance a vocês? uma civilização? Mas, parece que fazem questão de não trabalhar, indolentes”.


Diferentemente do que fizeram com o meu povo, esses colonos não viam como necessidade impor, ao menos não diretamente, sua religião e modos de vida. Ali o que importava eram seus vastos recursos naturais, que para aqueles colonos era mais valioso que ouro. Contudo, como fizeram com muitos dos meus filhos, no planeta Athse também buscaram escravizar alguns povos, usando-os como mão de obra da colônia.


Havia um grande descampado, e consegui assimilar um pouco da dor daqueles povos originários a cada cortar de árvore, a cada morte de animais sem razão, somente por que aqueles que agora se autodenominam os donos da terra, gostavam de caçar os animais, observando por seus olhos fálicos, como aqueles corriam pela vida pela vida, e nos momentos de azar, ver a caça sangrar, cair. Eram deuses, homens, machos.


Necessidades masculinas, diziam. Cuspiam o mesmo quando estupravam as mulheres. Estas que antes eram grandes chefes de seu povo, agora também sangravam, e muitas vezes, morriam nas mãos desses homens terranos. Nesses tempos, os sonhos dos athseanos eram outros, eram sonhos de morte, de vingança. Eles mudaram, captei em suas almas um desejo de luta que ardia, queimava. O sopro cessou, e eu voltei.



Primeira parte de Sopro entre mundos literários: reflexões sobre a situação e resistência dos povos indígenas em meio ao Brasil pandêmico. Continuação dia 25 de fevereiro.


Notas

¹ Do livro “Xingu, o rio que pulsa em nós: monitoramento independente para registro de impactos da UHE Belo Monte no território e no modo de vida do povo Juruna (Yudjá) da Volta Grande do Xingu.”

² Ver mais em Mito e Arqueologia: A interpretação dos Asurini do Xingu sobre os vestígios arqueológicos encontrados no Parque Indígena Kuatinemu-Pará. Horizontes antropológicos, artigo de Fabíola Andréa Silva.

³ Em Floresta é o nome do Mundo, livro de Ursula Le Guin, a autora apresenta que os povos autóctones do planeta Athse, foram vistos por muitos colonos da Terra como seres inferiores. Nesse sentido, utilizavam o termo “creechie” para se referir aos athseanos, descaracterizando-os e desumanizando-os. Em certa medida, algo muito similar ocorreu com os povos originários do Brasil.

Jéssica Marques da Costa é luzianiense, 24 anos, e tem morada na cidade de Jataí-GO onde faz graduação em História pela UFJ. Ama literatura e está em contínua procura de sua própria voz, escreve sempre que pode.


@ms_jessicamarques

24 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Margem | Editora Independente

CNPJ 37.746.037/0001-73

Endereço comercial: Avenida Fleming 394, Ouro Preto, Belo Horizonte, 31310-490

Prazo para postagem: até 10 dias úteis

©2021 por Matheus Gomes. Todos os direitos reservados.

Administrativo: margem.oficial@gmail.com

Envio de originais: margem.originais@gmail.com