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Para Sartre e Camus, contra Sartre e Camus, de Israel Isaac

Hoje acordei despido. Não há essência alguma que me cubra o corpo, tudo que posso fazer é existir. É justamente esse peso de ser responsável por meu próprio eu, essa liberdade incessante a que estamos todos condenados, que esmaga o peito e empurra-me nesse leito nem sempre noturno. E se é verdade, como quer o filósofo, que é isso o que me diferencia do musgo, da pedra ou da couve-flor, é também verossímil pensar que é por isso que não existem couves-flores no inferno, esse lugar que é sempre os outros. Então eu fito o céu, imenso bloco de concreto branco acima das minhas pálpebras. Meus olhos percorrem pequenas manchas aleatórias num certo canto e, pouco a pouco, formam-se figuras. E assim elas bailam num ritmo desconhecido que vez ou outra estão acostumadas a dançar. Não vejo nada, mas ao mesmo tempo tudo está lá: as imagens hipnagógicas, os amores não vividos, os ditos e os escritos. E com a mesma velocidade em que aparece o Universo, também ele se perde. Mas isso antes já disseram os poetas: é assim que o mundo acaba, não com um estrondo, mas com um suspiro.


Debaixo da água projeto-me como o artífice o faz com sua criação. Naquele caso, poder-se-ia dizer muito bem de uma essência a preceder a existência. Em tudo há o seu propósito: o do corta-papel, de cortar papel; o do martelo, de martelar; o da foice, de ceifar. Mas em mim a existência veio primeiro, uma tal maldição que, dizem, só se resolve esquecendo, alienando-se da própria condição. Então reclamo da água fria e, rotacionando um metal gélido, concluo o óbvio: eis mais um dia. Hoje acordei, amanhã pode ser que não. Tudo que sei é que hoje estou aqui, por alguns arranjos matemáticos desorganizados e um amontoado de acaso. Mas eis-me finalmente, mais um dia aqui, responsável por tudo o que sou e por tudo o que serei. Fazendo-me, faço o homem.


Conduzo-me então àquele ônibus. O semblante geral é melancólico, posso sentir os suspiros tênues em meio ao silêncio caótico. O cheiro é o da ferrugem, não sei se tanto por razões físicas quanto pelas poéticas. Todos ali experimentam o gosto da morte que rege as manhãs infelizmente não frias dos proletários. Sem julgamentos: também pensava eu sentir esse sabor por todo o efêmero eterno. Na verdade, é tudo o que eu tenho feito nesses últimos anos, perambulando pelos cantos já clareados com o rosto sempre sob o mesmo Sol. Não há nada novo que me escureça os ombros ou que me cause algum tipo de desavença. Outrora, se o fato póstumo se confirmasse em devaneio, não traria coisas pelas quais me orgulharia. Trata-se aqui de dar corpo ao absurdo, de tomar Sísifo – e não os deuses – como herói e modelo. Por muito pensou-se que a essência humana era necessária à vida possível, mas hoje vejo que não posso acreditar nisso, que não consigo fazê-lo. Em mim só há a existência. Todo o resto, construo eu.


Então vem o trabalho. Não sei o que faço, para quem faço, com que fins faço. Carrego os papéis, estoco o que deve ser estocado, descanso num canto qualquer quando não há ninguém a vigiar-me. Primeiro conto as horas, depois conto os minutos, no fim estou a contar quantas vezes piscam meus olhos. Num intervalo ou outro, coloco-me a fitar uma planilha, mas não é ela que finalmente vejo. Ali, a tentativa de significar essa existência confronta-se com a total ausência de sentido. Trata-se do mergulho ao absurdo, da vida comum, cotidiana, de Abraão e Isaque após o quase-filicídio. E então emerge o único problema filosófico que realmente importa, o único motivo capaz de fazer com que um homem como Galileu abdicasse tão facilmente da verdade. Todavia, antes que qualquer quase-reflexão pudesse desabrochar, tudo o que senti foi a chibata verbal de um homem de terno. Novamente, Eliot me venceu: é assim mesmo que o mundo acaba; não com um estrondo, mas com um suspiro.


Israel Isaac nasceu em Itaúna, Minas Gerais, e hoje mora em Belo Horizonte. É estudante de Filosofia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e apaixonado por literatura.

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