Objeto do Desejo, de Ana Luzia Oliveira

Ela se corroía pela dúvida e quanto mais ansiosa ficava, mais o desejava.


Desde que chegara na festa, ele era a única coisa que fazia sentido ali. No início, não estava tão difícil resistir, início de festa, não era o momento de se dar ao deleite.


Mas o tempo foi passando e o seu pensamento foi se fixando nele.


Ela pediu ajuda às amigas que a acompanhavam - não faça isso, menina, depois vai acabar se arrependendo; ah, que isso, vai lá, encara, vai te fazer bem. Elas mesmas não chegavam a uma conclusão do que seria melhor fazer, se dividiam, debatiam a sorte dela como se fosse uma notícia de revista. E ela achando que ia encontrar apoio, só encontrou mais dúvidas.


Enfim, ia até lá ou não?


Sentia que o momento estava se aproximando, se deixasse para mais tarde, ia acabar perdendo-o de vez, a concorrência era grande, quase desleal.


Há tanto tempo que ela não se permitia algo assim, já nem sabia mais como era. E como ela gostava. Mas, teve que fazer outras opções na vida, que a tinham afastado bruscamente de todo e qualquer prazer desse tipo que pudesse ter. Mas ela sonhava às vezes e acordava molhada de suor no meio da noite, com a boca cheia d'água. Na maior parte das vezes, disfarçava, fingia que não o via, que nem era com ela.


Só que hoje não tava dando, a primeira coisa que tinha visto foi ele e, desde então, sua mente não pensou mais em outra coisa. Por que não? O que de tão ruim poderia acontecer?


‒ Querida, você não sabe que quando a gente começa não consegue parar mais? Você vai perder o controle sobre si mesma, vai ficar escrava, dependente mesmo, viciada!


‒ Gente, vocês estão exagerando, não é assim, ela pode muito bem apenas dar uma provadinha, sentir o gostinho e parar quando ela quiser, ele não tem esse poder todo não!

E a discussão continuava acalorada.


Ela foi ficando alheia aos argumentos de suas amigas e foi se deixando levar.


Levantou-se de impulso, andando lenta, mas firmemente. Queria e pronto, não se privaria mais.


Aproximou-se.


Foi sentindo todo o prazer da abordagem, por si só, a arte da chegada, o contato visual, o faro do perfume…


Esticou a mão e nada mais importava, ali na frente de todo mundo, colocou tudo na boca de uma só vez, nunca lhe parecera tão bom!


O que?


Ora, o tão amado e querido brigadeiro de seus sonhos… é claro.



A ditadura do corpo perfeito, por padrões de beleza das passarelas de moda, e a da boa moça, por padrões morais da sociedade patriarcal, impõem às mulheres a repressão de seus desejos e a sublimação constante de suas necessidades na busca de um comportamento adequado à sua condição. Além do pecado original, somos perseguidas pela ameaça constante dos pecados capitais da Gula e da Luxúria, prazeres indesfrutáveis para o gênero feminino. Olhar para isso, em poesia, crônicas, contos, manifestos, é um dos passos a caminho da consciência.


Ana Luzia Oliveira é terapeuta sistêmica e integrante do coletivo feminista Vozes Escarlate. Escritora por necessidade de se conhecer e de se re-conhecer em palavras. Sempre filha. Mãe de dois filhos. Já foi esposa. Hoje, amante de si mesma e de seu parceiro de vida. Em meio século, ainda em busca de quem é. Sempre estará.

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