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O inefável, de Felipe Hensil

Deixo estas anotações a quem por elas se interessar. Devo, contudo, preveni-lo, leitor: nada além da mais abominável desgraça cairá sobre o pobre diabo que não acreditar de imediato nas palavras aqui escritas. Esta maldição, veja bem, é um fardo pesado demais para ser carregado sozinho. Leitor, se seu instinto primordial diz para que abandone este texto, escute-o. Este relato é, em sua finalidade, um pedido para que justamente NUNCA, e devo repetir, NUNCA, você, leitor, deixe de confiar em seus instintos. Principalmente após esta venenosa leitura. Até aqui você estará seguro em sua ignorância. Se desejar seguir, prepare-se para o inferno.


Preciso dizer que sempre fui um homem curioso. Desde sempre, meu pai fez questão de me dar uma educação completa. Nada, nunca, era-me negado ao se tratar de conhecimento. Sempre tive acesso aos mais preciosos livros. Era desejo de meu pai que isso me colocasse no caminho de uma carreira de prestígio, como o Direito ou a Medicina. Para seu infortúnio, afeiçoei-me demasiadamente pelos livros: tornei-me bibliotecário.


O trabalho em uma biblioteca envolve, obviamente, catalogação e organização das obras, além de prezar por sua qualidade. Veja bem, é meu absoluto prazer abrir cada nova aquisição literária, mas se pudesse algo desejar, seria que o livro maldito fosse perdido antes de chegar às minhas mãos. Tratava-se de um exemplar artesanal de folhas amareladas, maltratado pelas traças e sem título. Caso eu não o tivesse roubado aquela noite e o trazido comigo para casa, ele teria sido descartado. O fato insólito a respeito de tal objeto, além de sua aparência, era que estava em branco, a não ser por uma epígrafe “Lembre-se de não olhar”. Tenho comigo que o autor de tal obra preparava-se para escrever sobre isto que aqui escrevo a você, leitor, mas que foi interrompido, talvez por não seguir seu próprio conselho.


Minha fascinação pelo objeto crescia em oposição a minha compreensão sobre sua natureza. Não devo esquecer de não olhar para onde? Esta frase, “lembre-se de não olhar”, perseguia-me dia e noite, por todos os lugares. Podia passar horas sem pensar naquelas palavras, mas, num instante seguinte, minha mente era consumida por elas. E elas não vinham sozinhas. Havia o calafrio, o sopro de lugar nenhum que percorria meu corpo, como que o acordando para a fuga. Um mau presságio.


Perceba, leitor, que é neste ponto que caio em desgraça. Ao ignorar meus instintos, tornei-me presa desta maldição. Você deve entender o que estou tentando dizer. Devo alertá-lo, no entanto, que com as próximas frases seu destino estará selado. Este veneno irá corromper sua sanidade, e você viverá em constante vigília. Este é o preço da curiosidade. Se está disposto a pagá-lo, continue.


O que realmente quero dizer é que nosso corpo nos prepara para evitar o mal que não podemos ver. Você conhece a aflição, o desconforto, de sentar-se de costas a uma janela? A palpitação causada ao sentir que havia mais que apenas outro cômodo ao fechar uma porta atrás de você? A certeza que vem com o arrepio de que algo o observa? Ou quando, ao se deparar com um espelho, nega-se a olhá-lo por um receio desconhecido? Enfim, o suplício repentino feito pela mente, seja onde for, para que você não olhe para trás, porque há alguma coisa lá? HÁ alguma coisa lá. No espelho, no quarto escuro, na janela. Ela aguarda seu olhar. Nada disso é fruto de nossa imaginação. Se estas palavras causarem-lhe tormento, lembre-se de não olhar para trás, foque-se na leitura deste texto. A coisa, eventualmente, vai embora, desaparece por dias e noites, até retornar quando você menos espera. E ela volta. Nunca deixe de confiar em seus instintos.


Agora você sabe o que se esconde em nossos calafrios, embora, na verdade, não saibamos de nada sobre o que é essa... Coisa. Aqueles que sabem não estão aqui para contar a história. Minha missão está cumprida. Espero, leitor, que possa me perdoar por deixá-lo aqui. Mas a verdade é que não estamos sozinhos. Neste instante você não está sozinho. Lembre-se, leitor. Lembre-se. Lembre-se de não olhar.



Felipe Hensil é revisor de textos, contista e estudante de Letras. Gosta de anotar palavras em caderninhos e de encontrar aquilo que não estava procurando. Perde com frequência os caderninhos onde anota suas palavras. Medium: @felipehensil



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