O Escritor, de Daniel Teixeira

Foi meio assim, do nada, enquanto dobrava os lençóis lavados, que surgiu-lhe a ideia para seu novo e ambicioso romance.


Até pensava estar com um certo bloqueio criativo. Decidiu ir pegar a roupa limpa do varal depois de ficar pelo menos umas duas horas plantado à frente da máquina de escrever, enrolando, protelando, conjecturando se talvez o segredo fosse focar em um texto só ou em vários; se era melhor tomar foco em escrever contos ou abraçar de vez um projeto grande como um livro. Uma de suas principais constatações era também algo que o Escritor enxergava como um defeito: As suas melhores ideias concatenavam muito melhor em qualquer outra hora e espaço do que ali, no ambiente de trabalho. Grandes épicos e catarses de dar inveja invadiam-lhe a mente nos momentos mais inoportunos, seja por exemplo uma segunda-feira minguada onde tinha de ir trabalhar ou em uma reflexão solitária por alguma praça afora, em um passeio andarilho e munido de fones de ouvido. A música inspirava-lhe, mas nunca tomou o hábito de tentar ouvir música na hora de escrever. Tinha medo de se distrair toda vez.


A casa estava em silêncio quando a ideia ocorreu-lhe.


Terminou de dobrar os lençóis, ainda voltou correndo para a área de serviço a fim de guardar também todo o resto das roupas, e só depois que a última cueca foi dobrada e posta na gaveta dentro do armário, decidiu dar mais uma chance à sorte e sentou-se de novo diante da máquina de escrever.


Pois esse seria o grande romance de sua geração, pensou. Sim, sim. Desses que farão críticos literários um dia justificarem a importância de seu legado; que farão futuros professores e pesquisadores das mais renomadas universidades aí afora se estapearem lá dentro dos confins das salas de café de seus departamentos de literatura e letras, todos em uma busca consoante pela linha de pesquisa de sua obra literária – e de como será este livro, este cuja ideia acometeu-lhe assim tão de repente, dobrando lençóis em meio a toda e qualquer situação que poderia ocasionar esses súbitos lampejos de inspiração –; será este livro a fagulha, o catalisador que lançará o Escritor ao mundo; à crítica, ao universo profissional e reconhecido. Será este livro o trampolim de onde mergulhará de cabeça no reconhecimento e no sucesso.


Começou a escrever sua promissora ideia, sem pensar muito. Sem contemplar o branco da folha de papel como antes o faria; sem pensar que talvez fosse melhor sair e arejar a cabeça, talvez passar o dia de folga fora de casa, passeando por lugares há muito já não visitados. Praças, ruas, calçadas, bancos e árvores que o receberam tantas e tantas vezes no passado, em passeios que tinham a mesma intenção de materializar inspiração. Ver a folha de uma árvore caindo e cogitar um conto sobre uma formiga que se perde do formigueiro porque a folha caiu bem em cima do seu caminho. Ou então ver uma criança correr, sua mãe distraída não perceber nada e a criança desaparecer – puf – num passe de mágica assim. Escrever um thriller; um suspense. Aí chegar em casa e não lembrar de mais nada. Olhar para a folha de papel em branco na máquina de escrever e admirar sua brancura. Admirar a letra “R” pintada na tecla correspondente. Certa vez leu a opinião de alguém – sequer lembrava-se de quem, um jornalista talvez – de que a letra “R” é a mais bonita do alfabeto. Se deixar perder em tais devaneios, nunca chegando a escrever uma vírgula sequer enquanto o dia passava e a ansiedade arrancava-lhe, sempre tão brutal, a paz de espírito que adquiriu com o passeio e suas contemplações sobre crianças, distrações, formigas e folhas de árvore.


Desta vez foi diferente. Desta vez o Escritor conseguiu escrever.


Decidiu nomear seu personagem principal com algum nome começado em “R”. Nomear personagens sempre foi um problema à parte. Ainda mais principais. Uma lista de conferência veio-lhe à cabeça: O nome precisa ser original. Precisa ser criativo. Único, forte e simbólico. Precisa abraçar o personagem, rotular seu ego e transmitir um significado. Nomear personagens, quando se dado a um bom trabalho, é um exercício pavoroso e dolorido de semiótica. Semiótica é uma dessas coisas que aprendeu a arranhar sozinho, em uma dessas tardes enroladas onde o Escritor pensava que o segredo para vencer o bloqueio criativo talvez fosse estudar mais teoria literária. Ou comunicação. Foi assim mesmo que também assimilou a importância de se nomear com cuidado as personagens de uma obra. O marasmo que a ausência de inspiração impõe tem vantagens: Aprende-se muito. Ajuda a entender que outras pessoas no mundo também trabalham, também sofrem e enxugam a testa de suor e também possuem ideias revolucionárias de quando em quando.


Ajuda a alimentar a esperança de que um dia também chegará sua vez de deixar uma marca no mundo. O Escritor morre de medo da morte. Na verdade não se conhece bem o suficiente para saber se o medo é da morte em si, ou de morrer e não ter deixado um único legado na vida. Por que as pessoas lembram de Napoleão, mas não dos milhões de franceses que viveram sob seu reinado na mesma época? Napoleão legou sua marca no mundo. Milhões de franceses governados por ele jamais terão a mesma sorte. Pelo contrário: Seus destinos na História serão todos o mesmo e um só: Serem eternamente coletivizados como “o povo francês”, e úteis tão somente à afirmativa a seguir: “Napoleão Bonaparte governou, a partir de 1804, um povo francês composto de cerca de trinta milhões de pessoas”. Essa é a verdade: São trinta milhões de cabeças pensantes, mas somente uma delas teve seu nome citado aqui e agora. Hoje o povo francês é bem mais numeroso: sessenta e sete milhões. A concorrência dobrou. E o Escritor nem francês é.


Mas por que pensar em Napoleão se o foco aqui são escritores? Troque Napoleão por, digamos, Victor Hugo. Viveram os dois no mesmo século; já é alguma coisa. Hugo legou sua marca. Provavelmente deve ter havido, mesmo na semana passada, em alguma sala de café nos interiores obscuros e metafísicos do Departamento de Pós-Graduação e Pesquisa do curso de Letras e Literatura francesa na Universidade de Sorbonne, algum grupo fanático de professores estudiosos de Victor Hugo, em uma luta livre, com socos, pontapés e certamente bastante violência, brigando entre si para poder fazer um artigo destrinchando (ainda mais) a obra de Victor Hugo. O Escritor não saberia dizer o nome de nenhum desses estudiosos professores, mas só na ponta da língua consegue citar ao menos umas duas ou três obras que Victor Hugo escreveu.


Talvez, quem sabe, daqui a duzentos anos, quando até os bisnetos do Escritor estiverem no mínimo já numa casa de repouso, algum grupo de intelectuais estará se estapeando para destrinchar ainda mais a obra que ele estava começando ali e agora, diante da máquina de escrever, sem se deixar distrair nem por um segundo. Foi por essa meta que conseguiu ignorar as importâncias da semiótica e simplesmente nomear, por ora, seu personagem principal por “R___”. Havia definido a primeira letra, faltava agora o resto. “R” realmente é uma letra bonita – não tanto no sentido fonético, pois seu som parece uma espécie de catarrada grande parte das vezes – mas seu desenho é bonito. É completo: Não é puramente redondo, como um “O”; nem chato e minimalista como um “I”. Também é uma letra original; ela foge dos plágios malfeitos que um “D” ou um “J” possuem o fardo de carregar. A letra “R” carrega um pouco de tudo mesmo: Leva os agudos e obtusos, retos e redondos. Sabe incorporar o melhor que existe de letras como “B” e “N”, sem recair no óbvio preguiçoso de ser só um “P” com um risco de tinta a mais, quase que acidental. Não. Nem teria como: Um “P” sempre vai ter o mesmo som de “P”; aquele som de alguém que engoliu um mosquito sem querer e está tentando cuspi-lo pra fora. O “R” é mais nobre, mais requisitado. Apesar do som feio de catarrada (“carro”), também pode servir como um fonema mais modesto e coadjuvante (“caro”). “P” é sempre “P”. Vai funcionar igualzinho tanto em “pato” quanto em “puta”. Enfim, uma tristeza só. É mais fácil dizer que o “P” plagiou o “R” do que o contrário.


Prosseguiu por mais algumas horas com seu texto. Fez pausas e imaginou o que crítica e público poderiam vir a pensar das aventuras, dramas e alegrias que estava maquinando para R___. Considerou que era mais interessante do que um conto sobre formigas desviando de folhas gigantes, mas que certo suspense poderia vir a calhar bem, como naquela outra ideia sobre a criança que desaparece do parque. Vai misturando elementos, peças de ideias, encaixes, personagens de outros textos e outras situações. Sua cabeça fervilha em ideias, fluindo com a majestade de uma mente completamente focada no desenvolvimento de uma solução para um problema, problema este a necessidade de se produzir. Se escrever; sair do marasmo perturbador e atestado pelas horas voando, indo embora junto com o Sol, com a manhã virando tarde e a tarde virando noite. Dias que viram semanas e meses sem que uma linha decente tenha sido escrita, sempre culpa do bloqueio criativo, ou da rotina, ou do desinteresse, ou de uma fase mais preguiçosa, ou da ansiedade batendo, das tarefas se acumulando, da tentação de se fazer qualquer outra coisa apenas com um mote tão firme quanto desgraçado na cabeça: “Amanhã ou depois vou conseguir fazer melhor. Hoje já não adianta mais”.


É, amanhã ou depois chegou. Teve de chegar.


Mas ainda bem. É o passaporte para o sucesso.


O Escritor almoça e retorna um tempo depois. Concluiu seu primeiro capítulo. Relê o que escreveu. A empolgação ébria de mais cedo se foi; teve de ir pois ela não compartilha o mesmo espaço da revisão e da leitura crítica. Leitura esta que, cuidadosa e serene, o tranquiliza, mas não o satisfaz: Conseguiu escrever, mas agora já não acha mais que possui diante de si o grande romance de sua geração.


Na verdade, não escreveu absolutamente nada de extraordinário.


Raros devem ser aqueles que revisaram seu trabalho e ainda assim mantiveram tão bem-intencionado e inflado sentimento de orgulho. Talvez Victor Hugo, ao escrever Os miseráveis. Talvez por isso lembremos dele e não dos outros trinta milhões de franceses de sua época.


Mas tudo bem. Um passo de cada vez. Hoje dormiria mais tranquilo de noite, com certeza.


Até os lençóis estavam lavados.

Daniel Teixeira é paulistano, mas quase sempre morou em Campinas/SP. Ainda jovem fascinou-se pelas letras, e com menos de dez anos já ensejava as próprias histórias. Escreveu contos, algumas novelas e dois romances. É também economista formado pela Unicamp e atualmente servidor público na cidade de Valinhos/SP. Publica resenhas literárias e textos pessoais em seu blog pessoal e no Instagram.

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