O COLIBRI E O POMBO, de Wemerson Felipe Gomes

Eu bem queria uma crônica alegre. Uma crônica que, se muito, salvasse o caro leitor do fastio da vida encaixotada e sem outros afazeres; e, se pouco, pelo menos o distraísse três ou quatro minutos (nada mais que isso!), instaurando, entre nós, uma ligeira mas satisfatória dualidão. Dualidão, sim. Lembre-se: sofremos todos do mesmo mal: abandonado o lápis com que tento, em vão, salvar do tédio o pobre leitor, não procuro eu também, em lápis alheios, as doses de poesia que me aquietam a solidão?


Eu bem queria uma crônica alegre, ou quem sabe uma crônica leve. Já dizia Machado de Assis que cronista é colibri: salteia alegre pelos assuntos cotidianos. Hoje, porém, este cronista deixou sair outra ave de dentro de si: talvez um pombo, pela surda monotonia; talvez uma coruja, pelos olhos cansados e mal dormidos; talvez um corvo, pelo olhar ausente, estranho e assustador. Como qualquer dessas aves (a não ser, claro, o estupido colibri!), também não salteio elegante pelos temas escolhidos: atiro-os na cara de quem me lê; coisa que, inclusive, aprendi com os pombos. E caso não goste o ilustre leitor do que escrevo, restará apenas que limpe os ouvidos (talvez a cabeça inteira, não vi bem onde pousaram meus cumprimentos) enquanto voo distante e despreocupado, bordejando bambo pelas ruas bolorentas.


Eu bem queria uma crônica alegre, talvez alguém ainda se lembre (se houver aqui, é claro, quem me acompanhe; o que, todavia, é absolutamente desnecessário). Até aqui, porém, e sem que me esforçasse para tanto (eis uma virtude!), só fiz atirar aleatoriedades (talvez alguns insultos, mas estes não foram por querer) na cabeça do pobre leitor. Então calma, caro amigo, que se já não sabe do que se trata nesta página, também o autor ignora. Bem, minto: trata-se de crônicas alegres, como esta pretendia ser e, parece, não tem conseguido (mas ainda tenho algumas linhas, não é mesmo?).


Eu bem queria uma crônica alegre, pois não é justamente de alegria que estamos precisados nesses dias sozinhos, tão distantes – por amor e necessidade – de quem amamos? Mas é difícil alegrar-se; é difícil, inclusive, cumprir os objetivos dispostos: nesse ano passado, havia, preso dentro de casa, tanto tempo para tanta coisa; havia, do mesmo modo, nesta página em branco, tanto espaço para tanta coisa. Mas a vida tem sido assim: quer-se muito, consegue-se alguma coisa. A coisa é pouca, mas não é nada. E mesmo nada sobre um infinito de possibilidades é uma conquista razoável, não parece? Contemplar, assombrado, aquilo que não foi, e que talvez não venha a ser jamais, mas que existiu por um átimo de tempo na concretude da imaginação, é um ato potente de pensamento: ao traçar uma trilha ideal, e não percorrê-la de cabo a rabo, restará sempre a aventura trágica dos caminhos intraçados.


Olhando de longe, afastada a vista, quase uma página (quase um ano!): não foi perda de tempo, será? Entre as inutilidades de que aqui me ocupei, cheguei ao fim cheio sentidos de que não dispunha antes, e que talvez sirvam para depois (ou não, quem sabe?). De todo modo, o caminho foi percorrido: por enquanto, sobrevivemos – e isso não é pouca coisa.

Eu bem queria uma crônica alegre. Consegui uma página escrita. Sorte das aves, e até do estupido colibri, que ainda possuem a precária liberdade de sair por aí


Wemerson Felipe Gomes é mestrando em História na UFMG, graduando em Letras no Cefet/MG e escrevinhador. É um dos autores presentes na coletânea de poemas “Estados Líquidos”, publicada recentemente pela Margem Edições.

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