Jão, de Eduardo Ezus

Suas mãos são sumo escuro, suor e sujeira. Fermentam azedume e dignidade, no mesmo lugar, reprovável, inconcebível, que faz virar rosto pela cor e pelo cheiro. Preto, catador, nos cinquentanos, carrega cem a mais de vida alheia. Concebido, não nasceu menino, nasceu estatística, fadado ao fardo. Carregado pelo lixo que compõe certos errôneos conceitos, preconcebidos, decompõe-se, carregando desde sempre camadas e camadas do lixo de luxos desconhecidos e inalcançáveis, que, estes sim, juntando-se àqueles conceitos, são de nascimento certo, começo e meio, sem fim; foram meninos e crescem, na insalubre mistura que se pretende pura: o tecido social.


O lixo, matéria reciclável, indômita mania de continuar a ser, insumo a partir do consumo, é além do enxofre e do carbono: é nojo, ranço, reprovação, agressão, rebaixamento. As vezes ele pensa sou lixo, que foi usado em outra vida e que esta é a sobra, e enche o carro: de papelão, de garrafa, de alumínio; afoga o pensamento no ímpeto de sobreviver. Ainda novo, era choro e chorume, saliva e suor, enchendo o vão invisível dos porquês: mar negro e mar morto, nas alamedas que percorria. O sol secou as lágrimas, os anos ressacaram tudo. Tem amor pelo chorume, pelo líquido grosso que lhe desce o corpo, pela viscosidade nas mãos.


Viu negro morrer, branco morrer, facada em prostituta, fogo cruzado no meio da praça, droga de am a pm, e mais uma centena de etcs: vive na rua mas recusa sê-la. Da multidão, perde-se; procura sossego, erra o caminho do erro, envolve-se no escuro apenas com a noite, e pensa e lembra. Hoje tô com cinquenta, diz, aportando o carro com lixo carregado três vezes sua altura. Puxando um galão de água, refresca o rosto e ri: ainda fui até a quinta, e lembra uns poucos detalhes do colégio. Lê mal e assina o nome: resquícios de insistir no estudo. Quando a noite é longa, rabisca papeis com o próprio nome e sente leve prazer em ser identificado.


Hoje faz cinquenta - quantos já nas ruas? Fazer cinquenta é como fazer trinta e vem aquela sensação de novo ciclo retumbando. Mas não nele, ele passou a tristeza, passou a espera, na esquina dos anos, apenas observa e fica esperto para cruzar a próxima. Sorvida a sopa, masca o punhado de fumo e lembra alguns poucos detalhes da infância: a mesma sujeira escorria das mãos finas e jovens; a alegria de achar, no meio da choldra, um caderno de pintar, pintado; a surra da mãe perdendo tempo com essa besteira. Uma lágrima pensa sair do rosto enrugado e juntar-se ao peito aberto, fedendo a tudo: desiste e não cai: de nojo, retrai-se, torna-se colírio.


O Mercado acolhe, também, os seus cinquentanos, e oferta o mesmo lugar de sempre: o chão maciço, o odor de mijo, umas companhias perdidas. As horas passam, a noite adensa, a embriaguez e a loucura ganham espaço naqueles que o rodeiam. Isso não o interessa eu que não, e puxa um livro sem capa, meio estragado, que achou na troça revolvida. A cabeça apoiada na roda do carro, seu instrumento fiel, família e vínculo. Passa a sua leitura titubeada


Nu-ma Nu-ma ma-nhã manhã, ao DEspertar DE sonhos in-qui-etanTEs, GGre-gó-rio Samsa Gregó-rio Samsa Samsa, DE u-por-si DE-u deu por si na cama tran-sfor-ma-do num-gi-gantesco in-seto


e como nada fizesse sentindo, repete, desconfiando que era falha sua


Nu-ma man-hã, ao DEs-per-tar De son-hos in-qui-e-tan-tes, Gre-gó-rio Gregor-io Sam-sa deu por si na ca-ma tran-sfor-mado num gi-gan-te-sco in-se-to,


HA-HA-HA soltou, ‘ta que é cada invenção, o rosto por um segundo infante e feliz, e continuou


Es-ta-va DE-i-ta-do so-bre o dor-so dorso dorso?, tão du-ro que pa-re-cia re-ves-ti-do DE me-tal,

duro feito metal, ha-ha-ha, quissoé uma maluquice arrombada,


e as horas passavam, e em troca da má leitura, recebia um pouco de esquecimento.


O livro, sem capa, apenas uma folha em branco na frente, era uma sedução para o seu nome. A página clara, embora manchada, seu nome em grafite negro. De olhos cansados, secos da leitura, ele busca o lápis comido nas pontas e faz que vai escrever, imitando o gesto várias vezes no ar. Treina para não errar as únicas palavras que sabe, que tanto o alegram de uma alegria simplesincera, e arrisca o rabisco, seu nome: João Silva. Jão Silva. Sim, é alguém, agora é alguém sou e hoje fez cinquenta.


Eduardo Ezus é um poeta potiguar. Edita a revista virtual Tamarina Literária. Publica crônicas e outros textos em portais diversos, como Jol-RN e Revista Littera.

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