Encontros Alteristas, de Débora Mendes (Parte II)

Fomos para um apartamento, era o apartamento de negócios de João. Ele morava com os pais numa cidade próxima a BH, em um condomínio. O apartamento parecia uma casa de tão grande, sua sala era quase do tamanho de minha casa, aquilo não me deslumbrava, só me fazia criticar o capitalismo, muitos têm pouco e poucos têm muitos, para mim "essa conta não fecha".


‒ Bebe vinho?


A voz de João interrompia meus pensamentos... sua imagem também, segurava duas belas taças de cristais e um vinho que ele dizia ser de uma safra rara.


‒ Claro!

Apreciamos a bebida em frente à lareira daquele apartamento. Era exagerado de tão belo aquele lugar. Aquela lareira me fazia lembrar do fogão à lenha utilizado por minha mãe quando acabava o gás. Recorríamos a ele, fazíamos a comida, além de nos aquecer no frio. Aquecíamos com um monte de fumaça que impregnava em nossos corpos, o cheiro era singular. Não era como aquela bela lareira, aquela cobertura...aquela lareira era um luxo assim como tudo o que se encontrava naquele lugar.


Aquela extraordinária cobertura era próxima à Avenida Afonso Pena, mais acima da região central. Tudo naquele lugar - as ruas, as casas, os prédios, o comércio- era diferente do lugar onde eu passei a minha vida até aquele momento. Minha casa era próxima também a região central, próxima à Avenida Antônio Carlos. Era colada a uma favela- os becos, os morros, "o comércio"- era muito diferente do lugar em que eu me encontrava, poucos quilômetros, porém uma diferença exorbitante.


Uma parte de mim negava àquele ambiente de luxo, de coisas supérfluas, mas a outra parte queria estar ali, desfrutar daquilo que é construído a partir da exploração de trabalhadores, como disse, no capitalismo é preciso que muitos trabalhem muito, para que padrões de poucos sejam mantidos. Eu pertencia à parte dos muitos, João pertencia aos poucos. A alteridade mantinha-me atraída ao mundo tão próximo, e ao mesmo tempo tão distante.


Depois de quase bebermos o vinho todo da garrafa, João decidiu levar-me ao quarto, ou posso dizer à suíte, pois havia um banheiro com uma linda banheira, um cheiro que me lembrava ervas, um cheiro sutil. Olhávamos um para o outro, o olhar daquele atraente moço consumia meus olhos, meus seios, meus quadris, minha cintura e minhas pernas. Essas partes ainda estavam veladas pela roupa meio conservadora que eu vestia naquele dia.


‒ Permita-me fazer uma coisa que tenho pensado desde que a vi no museu?


Ele se aproximava de mim. Neste momento, estávamos próximos à cama, deixei de lado todos os pensamentos que me rodeavam desde o momento do nosso primeiro encontro, intensificados com a chegada àquele local tão contrastante. Respondi com um gesto de positividade, mexendo a cabeça levemente. Minhas mãos tremiam pouco, minha boca estava seca. Eu tentava me controlar.


Ele me beijou, me beijou lentamente, seus lábios não eram finos, então sentia-os me devorar, seu beijo e seu corpo mandavam-me sinais. O jeito como João mexia-o contra o meu parecia uma música lenta e profunda. Sentia-o querendo adentrar-me, suas mãos levemente abaixaram o zíper de meu vestido, que caía aos poucos com a ajuda de João, ele abaixava-o sutilmente. Nossos movimentos lembravam a danças leves, e ao mesmo tempo muito sensuais.


‒ Quero sentir a leveza desse corpo que me traz calmaria, mas que ao mesmo tempo é destruidor de tão perfeito. Deixo você escolher, Matilde, irei senti-la nesta cama ou naquela banheira?


Tendo em vista o tempo frio, escolhi a banheira com a água quente, aliás, nós sempre escolhemos o que achamos necessário. Teríamos o movimento de nossos corpos junto ao movimento d'água.


‒ Devido às circunstâncias temporais, vamos para a banheira.


João preparou-a com sais de banho com cheiros leves e deliciosos. Havia velas em torno do banheiro e próximas à água, um clima aconchegante e romântico, apesar de não termos um romance, acabávamos de nos conhecer naquele dia. Eu adorava me entregar a vida, aos amores, não me importava o pouco tempo o qual havíamos nos conhecido. O momento daria sentido a minha vida...


Entramos naquela banheira com água delicadamente quente que às vezes me queimava um pouco, a dor não me assustava, mas sim me instigava. Sentei de forma que suas pernas ficaram entre meu quadril, ele cobrira suas pernas... nesse momento senti aquela sensação que vem entre as pernas e cobre toda virilha, que nos deixa realmente leve. João não me deixou desfrutar deste momento, logo ele disse:


‒ Matilde, você é incrível! Não durei muito, desculpe-me. Vamos esperar um pouco e tentaremos de novo.


Os homens realmente não sabem curtir um bom momento, vão com tudo tentando nos impressionar, ou às vezes não conseguem se segurar. Meu lado crítico aparecia de repente, queria punir as pessoas de alguma forma...


‒ Fique tranquilo, João, o que temos é tempo, pois não demoramos nada, não é mesmo?


Vamos tentar de outra forma, ficarei de costas na cama agora, você verá uma imagem, uma obra de arte, essa imagem não te dará mais tempo para ficar preocupado.


Deitei-me com a barriga para baixo, quadris para cima, as pernas abertas ao máximo. Pedi que ele viesse naquele momento. Sabia como era empolgante para o sexo o sublime, assim como a dominação feminina. Essa posição demonstra tudo isso. João não esperou outro pedido, veio prontamente, neste momento, sentia partes de seu corpo em mim, a que estava dentro de mim naquele momento vinha com toda força, com tanta força que rapidamente se perdeu. Terminamos ali mesmo.


Ficamos conversando ao som da nossa MPB, tínhamos gostos similares. João tinha medo de eu achá-lo “fraco”. Disse para não se preocupar, pois essa frustração não era apenas dele, mas sim da maioria dos homens com quem estive. E era mesmo, os homens são tão inseguros quanto a sua autoafirmação sexual que precisam mostrarem-se super-homens na cama. Já era tarde, eu precisava voltar para casa.


‒ Preciso ir, amanhã trabalho cedo, logo em seguida vou para a aula.


‒ Eu te levo em casa.


‒ Tudo bem. Pouparia meu tempo.


‒ Vou te ver novamente? Você não deixou nenhum contato, Matilde. Como faremos? Acho que você não gostou do que aconteceu...


Como me cansa essa insegurança masculina, algumas vezes tenho vontade de sacudi-los para acordarem... sexo precisa ser feito como uma dança a dois, precisa-se de calma.


‒ Fique tranquilo, acabei de tomar banho, anotei meu telefone no vidro embaçado de seu espelho... se você voltar lá e o número ainda estiver intacto é para você me ligar, se não estiver... mesmo que saiba meu endereço, não volte a me procurar.


João correu para o banheiro mais que depressa, adorava quando alguém fazia de tudo para estar comigo ou pelo menos ter essa possibilidade. João voltava ofegante do banheiro repetindo os números escritos no espelho... ele anotou-os em um bloquinho sobre a mesa da sala.


‒ Matilde, você acreditaria em mim se eu dissesse que estou apaixonado?


‒ Claro! Assim como acredito que um dia seremos todos iguais.


Em meus pensamentos mais profundos, gostaria de acreditar em contos de fada, mas esse estado Alice no País das Maravilhas havia se destruído depois de minhas relações com o mundo real. As minhas relações amorosas/ sexuais ensinaram-me muito sobre o mundo, inclusive sobre a inexistência do amor à primeira vista. Seria apenas um encanto e um capricho, João achava-me superior sexualmente, por ele não ter sustentado por muito tempo uma ereção, e eu continuar sorrindo, como sempre faço, eu sempre sorrio... a vida é bela


Conto I de "A arte da excitação".

Débora Mendes é graduada em Letras pela UFMG, mineira de Belo Horizonte, adora literatura e ama romances. Atualmente, é professora de Português e produtora de conteúdo, além de ser amante do universo da escrita!

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