• Margem

Caça, de Matheus Gomes

A luz amarelada do metrô formava um halo disforme em meu rosto. Acentuava meus traços e escondia minhas emoções. Formava uma máscara indistinta na face de quem tanto sentia.


Pessoas perambulavam por toda parte. Esperando algo. Ou alguém. Ou nada. E eu nem sabia dessa gente. Não conhecia. E talvez fosse a única vez que os veria. Todos voavam desesperadamente como mariposas ao redor de uma lâmpada. Eu, ao contrário, estava parado. As asas cansadas. A luz que voei ao redor, já há tempos apagara. Um contraste no meio do que já era discrepante.


Estranhamente, após voltas e voltas ao redor, com meus olhos esfomeados, pouso em uma representação viva do belo. Encarnando a metáfora jocosa. Voando mesmo parado. Ato que faz o universo gargalhar, efetivando seu humor ácido.


Do outro lado dos trilhos, em uma distância intransponível, está você que fazia a luz do metrô parecer luz do sol. Você sem nome. Você sem endereço. Agora, consigo ouvir os sons de todos os relógios do mundo andando pra trás. Em décadas posteriores, juro que prometi te encontrar. Mesmo não te sabendo. Instantaneamente, uma sinfonia começa a tocar em minha cabeça. Um som inquietante que revela o interior sombrio de minha mente. E, sem permissão, você desmorona o que demorei em arquitetar.


Sua presença é tão magnifica. Lembrando-me de uma estátua esculpida no mais sólido mármore. Um peixe que tem conhecimento do aquário em que nada. Tão diferente do meu eu. Um edifício construído sobre um terreno duvidoso, que sucumbe ao sinal do menor dos ventos. Frágil. Mas é o lugar que conheço como lar.


Sem julgamentos.


Meus olhos estão vermelhos, consequência do fogo que consome meu interior. Minha boca seca, quando percebo que a cor atual dos meus olhos combina com a cor de sua blusa. Certamente, você também está queimando. Minha cabeça trabalha incessantemente. O que diabos devo fazer? Novamente, ouço a risada impiedosa do universo.


Cale-se.


Grito.


Sussurro.


Viajo sem ao menos ter pegado o trem.


Tamanha a euforia, que meu olho despenca. Agora não vejo mais você. Me vejo.


Estou dançando. As pernas livres e firmes fazem movimentos coreografados. As mãos acostumadas com tal ritmo, balançam suavemente ao redor do meu corpo.


Meus olhos são poços profundos, minha boca uma linha fina. A personificação é graciosa, assustadora. Indecifrável.


O ambiente ao redor se transforma, como uma paisagem em uma pintura, que vai tomando forma lentamente. As mesas e cadeiras ao redor estão cobertas de poeira. Rachaduras profundas decoram as paredes feitas de carne. O meu eu continua dançando ao som de uma melodia ritmada e intensa.


Tum. Tum. Tum.


Rodopios. Pulos. Piruetas.


A única janela do ambiente permite a entrada de uma frágil luz. As partículas pequeninas de poeira me acompanham em minha dança ritmada.


Estou de volta ao metrô. Rapidamente um trem se aproxima. Veloz. Sem piedade.


O dito trem cobre minha visão. Não vejo mais você. Pessoas-mariposas rapidamente se amontoam nos vagões, à procura de um lugar. De um abrigo. Depressa, a bagunça organizada aterrissa. E o trem parte.


Na outra passarela, além dos trilhos, você se foi. Se juntou à aglomeração e voou. Voou pousado nos bancos velhos do trem que partira. Como pode?


Volto ao ambiente pintado com as aquarelas desbotadas da minha mente. O ritmo impetuoso já cessara. O eu dançante se fora. Agora repousava de joelhos, com os ramos plantados pela ilusão agarrando-lhe os tornozelos. A luz pálida que entrava pela janela não existe mais. Até a janela desaparecera.


Tudo era escuridão. Desolação. Solidão.


Tudo era substantivo.


Tudo tinha nome.


O você que partira agora tinha identidade.


Os olhos famintos estavam quietos. Vidrados. O que era pra ser caçador, tornou-se caça.


Matheus Gomes é um escritor de Belo Horizonte, graduando em Edição na UFMG e, atualmente, trabalha como redator de um portal jornalístico da capital.

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