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6 poemas de Yuri Petrilli

AS NOSSAS CANÇÕES


não. as nossas canções não tocam nos bares nem nas ruas nem nas festas nem nos carnavais.


e entanto nas ruas nos carnavais nos bares e nas festas as nossas canções tocam em mim.


e eu nunca estou nos carnavais nem nas festas nem nas ruas nem nos bares. não.


estou sempre nos lugares imateriais aos quais me remetem as nossas canções.


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IDADES


o menino esconde seu sonho com medo que lhe caçoem


o rapaz esconde seu gesto por receio de olhares frígidos


quanto tempo até que o homem esconda de si seu coração?


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OUROBOROS


o tempo reúne a obra à natureza do obreiro. naquilo que afinal sobra reside o que é verdadeiro.


a vida em si o desdobra até que se mostre inteiro, na inteira volta da cobra aonde estava primeiro.


assim se vê claramente no olhar dos restos do lar, silente, longínquo, velho…


onde vagarosamente começa a se humanizar a infinda face do espelho.


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EPITÁFIO DE UM CORAÇÃO RETROATIVO


aqui jaz aquele que fez da memória o referencial de sua própria carne


nunca sobre nenhuma outra cova floresceram sonhos mais intactos e puros e irreais


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música palavra poema jogo instinto língua ódio intenção fóssil lábio arquétipo mudo outro par de olhos outro par de mãos perfeitamente vazias volúpia que mancha de branco o que nasceu pra ser vermelho máscara e resíduo incessante do que se encontra já morto demais pra poder se matar


unha postiça sobre a carne viva do meu amor por você



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no percurso entre mão e objeto o reconhecimento inconsciente de todas as ausências que compõem a eternidade


tintas brevemente recolhidas que os dedos não podem devolver


palma que cansada pousa no que não repousa, não alcança mas sente, sem saber


tudo faz parte da volta pra casa


 

Yuri Petrilli, nascido em 26 de dezembro de 2000, é poeta de Cerquilho, município do interior de São Paulo. Apaixonado pelo processo de criação poética, tomou gosto pela escrita durante a adolescência e desde então não parou mais, abordando, em suas obras, sobretudo, temas relacionados à memória, ao amor, à passagem do tempo e à solidão. Publica poemas e textos de maneira independente na internet desde 2019 (no Instagram @petrillipoesia) e também participa de eventos e festivais locais de poesia, além de ter sido selecionado, em 2020, para fazer parte da antologia poética A dor que deveras sente, tributo ao poeta português Fernando Pessoa, pela Editora Versejar.



 

Imagem: Edvard Munch – Melancholy (1894-96)



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